sábado, 24 de janeiro de 2009


Rogativa

Ora pro nobis, natureza nossa
Mesmo no seio da agonia em que reluta,
Que o homem, de discursos, sabe tanto...
Contenda em consciência pouca e natureza bruta.

Ora pro nobis, mãe tão desprezada
Por tantos que, de consciência tem tão pouco
É tua a paciência de quem vem abençoando
Cobrindo de belezas quem reage feito louco.

Ora pro nobis, natureza imensa
Que traz em chagas sua própria essência,
Por conta de quem anda em desatino.

Sem ofertas, sem pudores, sem amor
Destrói o sonho em pele de sonhador
E aos poucos aniquila o seu próprio destino.

Sônia C. Prazeres

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Via Sacra

Via Sacra


Diminuo a velocidade

Sigo atenta ao que desorienta

E fora da noção de cidade.

Observo o caminhante que encosta

Deixa do lado a carroça

E busca papel, tenta lata.

Pergunto algo e ele vem

Cheio de conversa e presteza

A informação faz sentir-se

Gente...

Se pergunto seu nome aí!!!

Nossa nem fale! Seus olhos brilham.

Agradeço a delicadeza e ele vai

Todo dia, mesma hora,

Os filhos pra escola

E ele...,

A avenida grande demais

A carroça cheia demais

O pagamento pequeno demais

A bebida fraca demais

E todo dia, diminuo a marcha

Reparo nos passos

E faço que passo।


Sônia C. Prazeres



terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fome



Fome

Há fomes de crescimento
De saber, de entender...
Há fome que é argumento
Para ser ou parecer.
Há fome que espera alimento;
Pequeno esse tormento
Só vontade de comer.
Dura é a fome que já desistiu
Que dorme e acorda roendo
O que o corpo já construiu.
Cruel é fome que assiste
A fome dos filhos que tem
Doe estômago, dói alma
Corpo fica enfraquecido
E o coração no desgosto
De ver virar pele e osso
As vidas...os corpos que concebeu.
E não consegue ter força
Esperança de Zé-ninguém
Faltam sonhos, sobram retalhos,
E embala o fato nos braços
De pele e osso também.

Sônia C. Prazeres ©

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Consciência

Aquietar-me a mim, gritar-me aos ouvidos!

Ouço os campos que não tenho, as avenidas doentes

Ouço meus sonhos e rio deles

Ouço meus danos e sou inteira!

Gritam-me as favelas, as calhas furadas

Grita-me a vida imensa de cotovelos inchados

Cega-me o peito à hora brilhante da lua

Gela-me o peito à hora morna do sol.

Aquietar-me a mim grita-me aos ouvidos

Como se meus intentos fossem acústicos

E assim, quedada a medo,

Sorridentes vultos sussurram-me impotência?

...escarnecedores...indolentes.

E tudo gira à volta como o carimbo

De eu mesma a acalcar,

Hora na almofada dos sonhos,

Hora na dureza de cada fato a conformar

ciência.

Sônia C. Prazeres

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cogitando

Cogitando

Cogitando

Qual a força da nossa indiferença?

Quanto nos move a dor da carne dilacerada

da criança relegada à pobreza de amor

à ausência de pão...

à miséria das guerras cotidianas?

Qual a força da ostentação e das fardas

fartas de glória e gemidos

fartas de dores por dentro, essas fardas...

noutra espécie de degredo

vê-se monstro e inteiro medo.

Qual a força que empregamos na paz?

Quantos Gandhys, Budas, Mdrs Teresa...

quantos Chicos? Mandelas, quantos?

Quantas mãos arregaçam as mangas para

brigar pelo amor num gesto doce, profundo?

Entre um filme humanitário e o violento,

quantos dos olhos nossos ainda são mais o segundo?

A paz dá sono, entedia...

E ridentes, somos a turba torcendo incerta,

escolhendo, ovacionando as dores alheias-nossas

baixando ainda, o polegar de César.

Sônia C. Prazeres

terça-feira, 1 de julho de 2008

Apelo


Para que os sinos toquem nos templos interiores
Para que se perceba os delírios e as dores;
Para que a fome seja somente opção... jejum,
Para que se converta a palavra oca
Em olhares, em versos mudos de atenção.
Para fazer emergir da miséria um grande homem;
Para que mudemos na raiz, em espírito!
Para que não erijam mais palanques
No centro das praças gritantes,
Enquanto ronda a miséria pelas esquinas.
Para que não ponham preço de coca nos nossos infantes
Para que não se vendam mais tenras meninas,
Nosso grito incessante, entoado, levado,
Lavado de amor eterno com ou sem poesias
Cheio de esperança nas rimas amenas...
Para fazer crescer as almas pequenas.


Sônia C. Prazeres


sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lamento

Lamento
 
Indescritível lamento
Na falta de um bom argumento
A miséria segue e ecoa.
Some-se a isso a alma humana
Que tudo absorve e re-clama
Passa o tempo
Segue o lamento
Falta de amor-investimento...
E o vazio ecoa!!!

Sônia C. Prazeres