sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cogitando

                                                          Cogitando


Qual a força da nossa indiferença?
Quanto nos move a dor da carne dilacerada
da criança relegada à pobreza de amor
à ausência de pão...
à miséria das guerras cotidianas?
Qual a força da ostentação e das fardas
fartas de glória e gemidos
fartas de dores por dentro, essas fardas...
noutra espécie de degredo
vê-se monstro e inteiro medo.
Qual a força que empregamos na paz?
Quantos Gandhys, Budas, Mdrs Teresa...
quantos Chicos? Mandelas, quantos?
Quantas mãos arregaçam as mangas para
brigar pelo amor num gesto doce, profundo?
Entre um filme humanitário e o violento,
quantos dos olhos nossos ainda são mais o segundo?
A paz dá sono, entedia...
E ridentes, somos a turba torcendo incerta,
escolhendo, ovacionando as dores alheias-nossas
baixando ainda, o polegar de César.
Sônia C. Prazeres

terça-feira, 1 de julho de 2008

Apelo



Apelo

Para que os sinos toquem nos templos interiores
Para que se perceba os delírios e as dores;
Para que a fome seja somente opção... jejum,
Para que se converta a palavra oca
Em olhares, em versos mudos de atenção.
Para fazer emergir da miséria um grande homem;
Para que mudemos na raiz, em espírito!
Para que não erijam mais palanques
No centro das praças gritantes,
Enquanto ronda a miséria pelas esquinas.
Para que não ponham preço de coca nos nossos infantes
Para que não se vendam mais tenras meninas,
Nosso grito incessante, entoado, levado,
Lavado de amor eterno com ou sem poesias
Cheio de esperança nas rimas amenas...
Para fazer crescer as almas pequenas.

Sônia C. Prazeres

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lamento

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Lamento
 
Indescritível lamento
Na falta de um bom argumento
A miséria segue e ecoa.
Some-se a isso a alma humana
Que tudo absorve e re-clama
Passa o tempo
Segue o lamento
Falta de amor-investimento...
E o vazio ecoa!!!
Sônia C. Prazeres

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Poesia Vexada

Poesia Vexada

Uma poesia do avesso.

Batendo nas portas

do que desmereço.

Incontida, atrevida,

Fincada, sulcada,

Descolorida e trincada.

Uma poesia sem lírios,

Sem quadras,

Lirismo atirado às calçadas

Bêbado, trôpego,

Sem nome, com fome

e de versos e estrofes,

carrega diversos - a prole.

Uma poesia desconexa,

perplexa...vexada...

Sem tempo de beleza

Perturbada...

Vivendo por tudo e por nada.


Sônia C. Prazeres


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Faz frio


Faz frio,

e o novelo não rende,
a colcha não chega aos pés
o cobertor é ralinho...
Faz frio e eu me sinto sozinho
ave do deserto

nada por perto
nem árvore, nem ninho...
Venta...

e o mar está furioso
e a madrugada tão lenta...
Gela...

e a lua nem é tão bela...

Carmen Regina Dias

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Autofagia



Autofagia

Cresce a carência
o medo e a descrença;
consumado o fato:
sociedade e aparência.
Não buscamos mais vitrinas
elas são uma presença.
Nas ruas, nas telas, nos telefones.
por tudo se paga
e o preço de tudo – moeda barata
não paga ou apaga a verdade:
o humano escondido
por trás dos sonhos falidos...
... Mas os sonhos não são vendidos.
Não vendem as horas-ternura
e lojas não têm amigos
que zelem na dor e amargura.
A droga assume e acompanha
embriaga e apaixona;
companheira que brinda ilusões.
Cresce uma autofagia
crematório do real acolhendo o imediato.
Humanos, buscamos deuses?
-Religião é ópio do povo!
Ecoa o chavão e intimida.
Melhor o ópio de fato, dependência,
que pôr consciência à vida.
Fumaça, ampola, êxtase!
Humano! Supremacia demais!
Quem é que pediu consciência?
Paga caro a conveniência
em troca de uns gramas de paz.

Sônia C. Prazeres

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Pejo




Pejo

Estou presa por demais à humanidade
E vaga o meu olhar pela cidade
Pelas calçadas, pelas esquinas marcadas
Dos sofrimentos que exalam
Sou pranto que fica mudo
Que espanta o verso enfeitado
Que vê o pedinte jogado
No frio que me gela as cobertas
Sou navalha cortando as arestas
Das roupas das empregadas
Das mãos todas recortadas
De tanto trabalho sem troco
Meu vôo fica pequeno
Os céus me jogam de volta
Quando vejo essas favelas
E o mundo que lhes revolta
Ah me perdoe!
Esta que escolheste por parceira
Vai te arrancar de vôos lindos
E trazer cheiro de lixo
Não posso deixar de ver isso
Quando o belo me atordoa
E neste canto, sinto que fico devendo;
O encanto me descorçoa
São gente, essas pelas ruas
Almas minhas e são tuas
E andam tão desvalidas...
Nem sei por onde começo
Se sigo ou se só tropeço
Nesse ensaio de tantas vidas.

Sônia C. Prazeres

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Vontade



Vontade

Queria andar pelas ruas, sem tempo.
Ser aquela senhora que passa, que entra
e talvez, alguém cumprimenta:
-Bom dia!
Queria ser ela sem nome,
sem que soubessem onde vou, o que faço.
Queria acertar meu passo
com qualquer solidão companheira.
De repente, queria mudar de nome
nada explicar ou dever;
queria a benção do anonimato
e o sobrenome guardado, gravado no peito
pra ninguém ver.
Queria despregar laços, embaraços de conviver.
Ermitã?
Não. Isso não queria.
Só ser a mulher que passa
a gente olha e saúda:
-Bom dia!

Sônia C. Prazeres

terça-feira, 11 de março de 2008

Mendicidade


Mendicidade

Nas linhas traçadas
nas mãos descarnadas
que estendem os homens
no rés das calçadas,
não passam estradas
futuro ou ventura.
Noite, vento e trovoada,
ir adiante sem quem se importe.
No caminho um desalinho
e posto - topar com a morte.
Sussurra o povo dividido
entre a “dor” necessária e o alívio:
-nossa! Esse teve sorte.



Sônia C. Prazeres

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Restauro

Restauro

Fundo do poço
ferida, mágoa latente.
Dor lancinante imiscuída
noutros olhos, noutros braços...
nos laços que formam a gente.
Fundo do poço que traz
a medida da morte,
mas mantém aberta a cova
donde o espírito se ergue
acorda, se esforça
cuida da chaga, ávido de vida
e olhando a abertura acima,
vendo o céu, limite infindo,
recomeça a escalada...a subida;
Não há fim...tudo é saída...
tudo começo...tudo vida.

Sônia C. Prazeres

sábado, 8 de dezembro de 2007

Apelo


Apelo
Para que os sinos toquem nos templos interiores
Para que se perceba os delírios e as dores;

Para que a fome seja somente opção... jejum,
Para que se converta a palavra oca
Em olhares, em versos mudos de atenção.
Para fazer emergir da miséria um grande homem;

Para que mudemos na raiz, em espírito!

Para que não erijam mais palanques
No centro das praças gritantes,
Enquanto ronda a miséria pelas esquinas.

Para que não ponham preço de coca nos nossos infantes

Para que não se vendam mais tenras meninas,
Nosso grito incessante, entoado, levado,
Lavado de amor eterno com ou sem poesias
Cheio de esperança nas rimas amenas...
Para fazer crescer as almas pequenas.

Sônia C. Prazeres

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Luto

Luto

Estou de Luto
Com os olhos inchados
de ver tanto fardo pesado
tanto fato marcando a ferro
tanto dia amargado.
Estou plantada e de luto
De ver crianças perdidas
De ver tantos jovens drogados
Entregues à morte buscando vida
Trilhando caminho trocado.
Estou de peito calado
Por tanta dor, tanta raiva
De ver o humano humilhado
Ajoelhado implorando
Clamando o que é de direito
E o poder desdenhando
...Cruel desrespeito.
Estou de luto diante da miséria
Diante das vitrines...
Cobiças latentes de tantas
Desnecessidades...
Luto diante da mão que me estendem
Do carro que querem olhar
Do menino que rouba a carteira
Do mundo sem eira nem beira
Diante do espelho que grita...
Que cobra...
Diante do próximo passo
Que se desdobra em abrolhos
Onde tão pouco luto...
E se derrama esse luto
Através dos meus olhos.

Sônia C. Prazeres




terça-feira, 27 de novembro de 2007

Motivos


Motivos

Diferenças controversas
Igualdades desprezadas
Anseios por escaladas
Receios de decair
Maus tratos descabidos
Orgulho, vaidade,
Temores que a usura encerra;
Lutas sem hombridade
Egoísmo, senhor da guerra!

Sônia C. Prazeres

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Quando


Quando

Quando outro vem...
Mais um metrô carregado de gente
Mais um caminhão cheio de gado...
Mais um avião acima, de repente,
Quando outro vem...
Mais um ônibus lotado
Mais um tropeço nas filas do mercado
Mais um débito no rombo bancário.
Quando outro vem...
Mais um motim no meio presidiário
Mais um festim - homenagem vazia
Mais um complô de político des-armado,
Pouso os olhos cansados
No que calo e deveria gritar,
No que ralo, falo e deveria calar
No que era vida, entretanto,
Vive a virar desencanto.

Sônia C. Prazeres

sábado, 17 de novembro de 2007

Repara


Repara

Põe os olhos no menino
Que corre e se desvencilha
Olha bem! Parece uma trilha
Um caminho que se avizinha

Põe os olhos na menina
Deposita tuas armas,
E vê se não te fascina
A infância que ainda guardas.


Matreiro, fútil, suarento
Risadas ecoam felizes
Vigor, alegria, contentamento!
Pulsa vida nestas matrizes.

É a sorte sondando o terreno
Entra nele com teu abraço... Vês?
Já traz dentro dele o adulto
Pra te entregar outros braços.


Sônia C. Prazeres

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Roncou de fome



Roncou de fome
O estômago sem nome
Dos olhos brilhantes
Da menina estonteante
Que nem percebem que é linda!
Olhando-se bem de perto
Parece aquela, retinta
Que inda ontem na tela
Surgia alegre e bonita!
Mas essa não,... não tem nome
Não brilha na televisão
Nas passarelas da moda...
É magra e linda escondida;
E a saradinha barriga
Ronca, mas é de fome.

Sônia C. Prazeres 

Seca

Seca

Espelho fendido
Rostos rachados
Olhar descuidado.
Terra trincada da seca
Semblante ressecado
Sem terra, sem viço
Versão pra miséria
Descaso que vem de outro lado.
Telefone do toque sem som
Só treme, ninguém atento ou atende;
E a terra se racha em busca de água
Mas lágrima é salgada...

Sônia C. Prazeres

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Contador de Histórias


Contador de Histórias
Veio num dia escuro, daqueles que dão tristeza Encontrou inseguros olhares baixados por trás da mesa Nos pratos água e farinha; nem alegria, nem norte. Mas veio falar de vida de mundo modificado Emprestou mil esperanças contando o que tem encontrado. Veio dizendo que viu gente triste acalentada Gente pobre bem cuidada e fome passando longe. Viu crianças sorridentes de brilho no olhar contente Vendendo saúde aos montes e aprendendo de tudo que há; Que viu irrigadas terras onde a seca castigava Que não tinham mais enchentes, que foi terminada a miséria Ninguém mais se maltratava, eles tinham que acreditar. E ali, a platéia muda boquiaberta e estarrecida Mal segurava a saliva que lhe brotava na boca. Gosto doce esse de vida de direitos aproveitados Respeitados pelos homens, não por lei, mas por amor. Dizia o moço que tinham que ter coragem, Que não cansassem da espera porque tudo vinha chegando Ali, na mesma viagem, por meio de que ele viera; O comboio vinha atrás. Contou que correu na frente Trazendo a notícia depressa no afã de vê-los contentes. Platéia de olhares tristonhos que engole a saliva e sonha Sorri agora entre dentes e começa a acreditar; "É que sonho assumido, sonhado com veracidade Alguém falou que de fato acaba virando verdade." E agora os rostos marcados insistem desajeitados, Pedem mais para alimentar, no peito, a chama o calor Aplaudem e quase imploram: -Repete moço, repete! Fala outra vez, contador! Sônia C. Prazeres ©

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Voz e Eco 84

Voz - 84

Brota, em ramo, da terra
Olhos mirrados de sede,
Selado, vendado e devoto.

Não se rega, nem se nota
Não se cria nem se morre!
Chão é mãe, não adota
Chão é pai, nem socorre.

Brota, seco, entre as pernas
Ventos há que semeiem
Ninguém planta nem colhe
Se pesar que apeie
Se chover que se molhe.

Que importa?
Pois brotou, que se cuide!


Gustavo Schramm

Eco - 84

Para esta crueza, calo.
Calo a boca de vergonha,
Calo nos pés dos eleitos.

A quem não nego, renego
Não sou água nem alimento.
Brota erva, nem daninha
Nem ungüento...

Ventos que causam
Se espalham, se desnorteiam;
Ninguém colhe, acolhe ou recolhe
Nem tento.
Se chover, se lamenta.

É frio?
Que venha o sol que isso esquenta.

Sônia C. Prazeres